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O mundo da Ana Rita

Below are the 25 most recent journal entries.

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  2006.02.01  13.41
Ora

Com grande espanto vejo comentários nesta moribunda página, datados já de 2006, numa altura em que julgava fácil perceberem-me morta, enterrada ou desaparecida algures na Polinésia francesa.

Mas que amorosos são vocês.

 
 


 
  2005.02.14  17.59
Me voilá de retour

Confirmo as suspeitas de alguns leitores: Santana Lopes é, de facto, o famosíssimo artista conceitual tão querido da blogo e da esfera onde se insere a yours truly: [info]nightlopes.

É verdade que ando ocupada com coisas interessantes, mas não resisto de quando em vez a espreitar a página do querido Lopes nocturno, e deparei-me com o seu último poema. Imediatamente a luz desceu sobre mim.
É ele. É o nosso Primeiro Ministro.

"Tempo escuro

A memória de um tempo que está escuro,
O ferir de um ferro duro
quando me empurras contra o muro.

O futuro já não tem razões.
Dias amargos como limões
preseguem-nos aos tropeções.

O grito que magoa a garganta (Nota da cabra: pois não é que o homem anda a mel e limão?),
bolhas no sangue como uma fanta
que envenena, mesmo debaixo da manta.

A terrível dor que me traz tristeza -
mas o que rima com tristeza?
não encontro rima para a tristeza.

A certeza de que o tempo será sempre pior,
O desãnimo de sentir sempre o mesmo torpor
e a dor, e a dor, e a dor, e a dor, e a dor."


Palavra por palavra. Ele sofre,anda na noite, pede colinho e escreve poemas. Como é que nunca reparámos antes?
Senhor Primeiro Ministro, queira perdoar-me tê-lo tratado por tu e aceite os meus votos de boa sorte para ganhar as eleições com um penteado tão indescritivelmente mau.



Mood: bored
Music: Richard Clayderman toca sus canciónes favoritas
 
 


 
  2004.10.13  12.54
Os Diários do Che

Não existem pessoas boazinhas.
(E o Dennis Leary está farto de vos avisar que não existe cura para o cancro.)
O Che Guevara, meus queridos, queridos meninos, não era nenhum santinho a dar a mãozinha aos leprosos todos e a ajudar velhinhas a atravessar a estrada e a tirar gatinhos das árvores e a escovar os dentes de manhã, à noite e a seguir cada refeição.
Fui ver o filme, pois fui, e quando saí o meu inquieto espírito perguntava-se se existia de facto gente que engolia tanta bondade, tanta honestidade, tanta sinceridade, TANTA CARIDADE, carago. Não precisei de muito tempo nem de muitos comentários para perceber que existiam, com certeza, aliás, parece-me bem que naquela sala bonita ali tão perto da Avenida de Roma, a esmagadora maioria saiu com a sensação de que o Che era mesmo um santo. Tipo Christopher Reeves mas vivo ainda, na altura.

Não suporto estas biografias embonecadas, cheias de fond de teint e pó de arroz, que fazem das pessoas magníficos exemplos de caridade suprema desde sempre.

Não existem pessoas boazinhas, repito isto entre dois Gin Tonic, existem gajos bons, é certo, tal como existem gajas boas, mas são bons no sentido de ouve, eu bem levava o rapaz García para casa para lhe ensinar umas coisas (e levava, que quanto a isto não se formem dúvidas), mas ser bom não significa, brademos aos céus, ser bonzinho. E o Che Guevara, oh suprema infâmia, não deixava de ser um guerrilheiro, um senhor que recorria às armas e ao sangue e isso. Que se saiba ele não era nenhum Ghandi a derrotar Impérios com greves de fome, nem era nenhuma Madre Teresa a alimentar os pobres e a andar descalço com eles. Era um tipo com convicções, um rebelde com uma causa, um lutador, o que vocês quiserem, agora, venderem dele uma imagem de menino certinho, que nem uma mentira dizia, enfim...não será para todos ter cabeça para acreditar que existe gente assim. Mas quem garante ao mundo que ele era mesmo boa pessoa? Como no "Homem Fantasma" do Sérgio Godinho, imaginem só, o tipo anda a salvar o Mundo e quando chega a casa, enche a(s) mulher(es) e os filhos de porrada, isso faz dele o quê? Um gajo simpático na rua, um cabrão em casa? Um cabrão a tempo inteiro? Um gajo bonzinho mesmo assim porque, coitadito, salvar o Mundo é stressante?
O Pessoa falava muito neles, nos semi-deuses que povoam o mundo e que jamais confessariam uma infâmia ou um erro. São bonitos, eles. Uma pena não existirem.
O Che Guevara, um gajo bonzinho? Sim, pois está claro, como é que nunca tinha percebido isso? E curiosamente, quase apostava que nem o próprio Che, consciente da importância de se chamar Ernesto, se prestaria a ser caricaturado em moldes tão cristãos.
Já não se fazem heróis como antigamente, talvez seja por isso que não consigo encaixar a imagem do menino querido que atravessa o rio para ir dançar com os leprosos, na do guerrilheiro sanguinário (ah, pois, se calhar não avisaram os meus queridos meninos que nas guerrilhas, matava-se gente e a gente deitava sangue, uma maçada, como diz o outro). E logo agora, tinha de morrer o Super Homem também.
Estamos todos fodidos.


Ou não.

Porreiro, porreiro, era o amigo do Guevara, capaz de desperdiçar dinheiro de sobrevivência para dar uma boa queca. Há que saber estabelecer prioridades. Sobretudo se a queca for mesmo boa.



Music: David Bowie - Young Americans
 
 


 
  2004.09.07  12.10
Ainda de férias, mais coisa menos coisa

Falta-me o tempo e talvez a vontade de partilhar convosco o que vou comendo nas férias, mas não gosto de deixar esta página a ganhar pó durante tanto tempo, portanto, e para quem não costuma comprar a Revista 365, deixo-vos um dos textos publicados por lá, com um ou outro corte.
Curiosamente, convivi com essa situação de perto umas três vezes nos últimos dois meses, e assim sendo, nada me parece tão apropriado para a ocasião.
Have fun.


A sedução caiu em desuso tanto como permanentes em loiras de raízes pretas. Ou melhor, não é que esteja em desuso, mas o mau gosto predomina em detrimento do savoir faire. É um bocado como ver que desde que o Paulo Coelho decidiu ser escritor, as pessoas começaram a comprar livros em bombas de gasolina, deixando de lado o glamour de uma livraria a sério, com livros de verdade e tudo. Perdeu-se a arte, perdeu-se a vontade, perdeu-se a subtileza no jogo de domínio.
Quer isto dizer, acontece todos os dias, a toda a hora, pensem comigo.
Um tipo conhece uma tipa qualquer, acha-lhe a piada que ela tiver, ela devolve o interesse de forma subtil. Há que alimentar o interesse mútuo de qualquer maneira. Existem amigos em comum, partilha-se a mesma mailing list de eventos culturais, ela descobre-lhe o e-mail e envia um forward sobre cachorrinhos abandonados, olha só Rogério, como sou humana, ele replica, conta-lhe a história do Cenupe, encontrado coxo, cego e com sarna numa paragem de autocarro na Bobadela. Ela, comovida, conta-lhe a história do Pirata, o gato de duas patas que ela trouxe de recordação de Turim e que acabou por morrer sufocado no cesto da roupa suja e ele adiciona-a no Messenger, pobre criatura, que duro golpe, a morte do quadrúpede feito bípede, que aprendeu a andar com um suporte em madeira encaixado nas ancas com duas rodinhas para lhe permitir alguma mobilidade. Ele consola-a, envia-lhe mensagens repletas de bonecos, corações e flores, ela ri-se do outro lado do monitor, no fundo o raio do gato era uma carga de trabalho, nem cagar no cesto sabia, mas responde-lhe, cada vez mais infeliz, que é duro, é muito duro, o Pirata era o meu melhor amigo, ai tanta solidão Rogério, é muito complicado.
Ela à noite até quer conversa, mas não sabia como dar-lhe o número sem ele pedir, um dia surge o tema, olha Natércia, sabes, ontem antes de deitar o Cenupe, lembrei-me de ti mas não tinha o teu número para te mandar um beijinho, e ela feliz da vida, oh Rogério pois é, também me lembrei de ti, olha é 965634246 (declino qualquer responsabilidade sobre a possibilidade deste número existir de facto).
E assim começa, primeiro com sms, manda o livro de procedimentos. Uma à hora do jantar, outra antes de dormir na primeira semana, o descontrolo total nas seguintes, rios e rios de dinheiro dispensado em sms, os amigos começam a queixar-se, larga lá essa merda, sempre colado ao telefone, pá, olha aí, o Benfica levou mais um e tu nem viste, e elas muito curiosas, ó Natércia, mas quem é ele?, já nem falas connosco, ai desculpem vou para casa que fiquei sem bateria e estou à espera de uma mensagem importante.
Com o passar do tempo, inevitavelmente, as mensagens já não chegam, dá-se mais um passo no ritual de acasalamento moderno. Vem então a fase, bastante mais dispendiosa, dos telefonemas, e com ela, a que será provavelmente a mais humilhante de todas. O telemóvel ganha vida própria, não se cala, tem um toque especial para ele, o tema da Casa na Pradaria ou da Missão Impossível que a faz saltar da mesa a meio do almoço e correr a encostar-se na parede do corredor de entrada do restaurante, a abanar-se de um lado para o outro e a mandar risadinhas. Horas e horas ao telefone, não se entende, porque raio não vão beber um copo e resolvem a coisa de uma vez, ele conta-lhe como correu o dia, ela ri-se e diz coitadinho muitas vezes, às vezes ficam calados, se ele pudesse comia a máquina inteira e de repente ela atira para o ar, estou sozinha em casa, nem imaginas o silêncio e ele diz, queres companhia? ela responde, vem cá ter e eu desço já. Ele leva-a de carro até ao Parque das Nações, acha que é romântico ver o rio com a mistura insuportável de músicas dos bares da Expo como pano de fundo, sentam-se e gelam corajosamente, está um frio do caralho, nada melhor para a aproximação, ela lá se vai chegando a ele, está fresquinho afinal, e lá trocam os primeiros beijos. Depois voltam para casa, ele não sobe na primeira noite porque não é de bom tom, sendo as intenções, como diz o Sérgio Godinho, sempre das mais sérias, mais umas cinco ou seis mensagens, cada vez mais explicitas, custou-me muito não subir e descobrir o que escondia essa camisolinha angorá fuscia, mas eu entendo e espero por ti - o que, noutra altura significava apenas que, enfim, aqueles beijinhos salivantes accionaram os mecanismos eróticos e agora o Rogério, coitadito, lá vai para casa honrar Onan sozinho até ela se decidir a passar à fase seguinte.
Resolve-se a coisa e a Natércia passa a noite com o Rogério. Levaram tanto tempo em mensagens e mails e bonecos amarelos que não há milagre que sustente a verticalidade que a ocasião exige. Ela diz que não faz mal, estão os dois nervosos, é muita expectativa para a primeira noite e adormecem ainda agarrados à esperança de que foi mesmo só um problema de nervos, outras ocasiões virão para levar o barco a bom porto.
Ao terceiro encontro, impera o embaraço da noite falhada, ela leva-o a comer aos Tibetanos, parece que é bom e não se pode fumar lá dentro, ela adora estas coisas, velinhas e incensos e tofu temperado com gengibre. Ele detesta comida saudável mas faz um esforço e come a beringela gratinada toda, sente-se em falta e não quer dizer-lhe na cara que aquela merda não sabe a nada, sorri muito e dá-lhe a mão, chega a fazer uma piada sobre o que aconteceu e ela tenta não se engasgar no molho branco, nas mensagens é muito mais fácil ler desculpa lá a pila murcha, dito assim não soa a nervoso adolescente, soa mesmo ao que é, não o levantei, foi muita tecnologia antes da acção.
Desta vez é na casa dele que decidem resolver o que ficou pendente na primeira noite, o peso da responsabilidade é grande, sente-se a tensão no ar, há que ir direito ao assunto, a Natércia até foi de saia, assim é mais rápido, mas o Rogério, esmagado pela pressão, não resiste e vem-se abaixo outra vez. Ela dá-lhe um beijo na testa, o que é quase sempre mau sinal, e diz que prefere ir dormir a casa, se ele não se importa de a levar.
Na manhã seguinte já no escritório, ele liga-se ao Messenger para dizer bom dia e assim que ele entra, ela fica off-line. Ele espera, talvez seja uma reunião, ou se calhar a ligação caiu, mas ela não volta a entrar. Ele manda-lhe uma mensagem, então Tercinha, não vens ao Messenger hoje?, mas ela não responde. Ele espera, tenta ligar à hora do almoço, atendedor de chamadas, mas ela não liga de volta nem reage ao tom preocupado da mensagem dele. Dois dias, três dias, a Natércia lá volta a ligar-se ao Messenger e o Rogério, confuso, quer uma explicação, quer entender o que aconteceu. E desta vez ela responde e finalmente, entendo eu aqui este lado para que raio servia o ícone com a rosa murcha no MSN Messenger, querido não resultou, se calhar devias ver isso, podes ter algum problema e pronto, status 'Away' e silêncio total e definitivo.
É aqui que tudo vem parar, a um boneco representando uma rosa muito pouco vertical que, a não dizer nada, diz tudo o que tem a dizer, a tecnologia é de facto uma coisa fascinante, mais um bocado e ninguém fala, andamos todos com laptops a enviar ícones do MSN uns aos outros e evitamos grandes confrontos - eis então a vida e a morte de um romance moderno em dois ou três actos, nem chega a ser nada de excepcional em 2004, acontece todos os dias, a toda a hora, certo?
Não há físico que sobreviva a tanto virtual, digo eu.



Mood: cynical
Music: Will Oldham - Agnes, Queen of Sorrow
 
 


 
  2004.06.24  16.44
sim

Bife com ovo a cavalo (mas que expressão tão patética), arroz e batatas fritas.
Um dos maiores assassinos da nossa era.
E depois digam que em Portugal o terrorismo não existe e ponham lá as vossas bandeirinhas à janela.



Mood: shocked
Music: Spain
 
 


 
  2004.06.15  12.10
Já vai, já vai

Antes de recomeçar o exaustivo plágio ao MEC (até porque tenham paciência, o bairro alto é-me insuportável em determinadas alturas do ano), gostava de partilhar convosco -sim, hoka hei, dedicado anónimo malgré toi, contigo também- uma bela frase que ouvi esta manhã, uma daquelas capazes de alterar o metabolismo a qualquer pessoa com três dedos de testa e fazer o Dalai Lama distribuir socos aos monges.

Passa por mim uma tipa com uma mini saia laranja, estão 30 graus à sombra, quem pode arejar o entrefolho, areja, quem não pode, ou ignora, ou aprecia ou demonstra, em grande, toda a sua animalesca ignorância e revela o frustrado impotente escondido por detrás da camisa aberta no peito com comentários como este:

"Depois não querem que um homem faça coisas! Elas provocam, são elas que provocam!, olha só para aquilo!"

Ao som da frase, tento a custo compreender que boca doente se atreveu a cuspir a horas matinais todos os quatro neurónios com que a natureza mãe o agraciou, e deparo-me não com um, mas com três animaizinhos bípedes, vestidos a rigor para misturar cimento, encostados ao patamar por onde passou a mini saia, num misto de horror cristão e desejo preverso de meter a mãozinha no meio daquela tranca bronzeada e oleada.

Amigos, amigos, é bem verdade que gostavam de ter em casa perninhas compridas com pouco trapo para despir, que gostavam de deitar a mão a acessíveis e apetecíveis rabitos, fofos e frescos e ali tão perto, mas a vida é feita de injustiças. Imagino que é uma dor sem par, essa de andar com a dobra assada e transpirada, e que no fundo os males do mundo são fruto dessa vontade frustrada de arejar também, mas atirar ao ar justificações rotas para a irracionalidade e incompetência intelectual e física de alguns dos vossos iguais, não vão mudar em nada o facto de podemos impunemente apanhar ar fresco onde vocês ainda pensam que só apanhamos valentes (às vezes, só às vezes) falos.
O Verão é de quem pode vestir o mínimo. O resto é falta de ajax.



Music: The reindeer section - Y'all get scared now, ya hear?
 
 


 
  2004.05.11  11.25
Bem

A Polinésia deixa-me bem disposta.
Isto não é estado de humor que se tenha.
Começo a planear o meu regresso a Lisboa, à minha pesquisa sobre os cromos do Bairro Alto e aos anónimos insatisfeitos.

Não mandei postais a ninguém.

Até breve.

 
 


 
  2004.03.25  11.33


Fui dar uma volta à Polinésia. Volto já.

 
 


 
  2004.02.27  18.12
Meeting people is easy

Tenho vindo a fazer um pequeno levantamento dos frequentadores da noite lisboeta. Porque é uma cidade fervilhante em géneros, fá-lo-ei por partes, à medida da minha disponibilidade para passar por cá. Aceito sugestões, observações e acrescentos até terminar esta pequena pesquisa.

E para começar:

Os homens - Parte I

Espécimens disponíveis na noite do Bairro Alto:

O Freak

Usa roupas rasgadas e não tem a mínima noção de harmonia nas cores. Gorro andino na cabeça, com rastas repletas de parafina, cera de velas e porcas a espreitar por debaixo da lã e lenço à la Che Guevara. Não engata, espera que alguém o engate a ele, e só tem olhos para tipas que não se conseguem decidir entre as calças ou a saia e portanto, vestem as duas coisas ao mesmo tempo. Bebe mistas em copos de plástico e passa a noite na rua a insultar as bestas que passam de carro no Bairro Alto. Ouve Pearl Jam e Manu Chao, não gosta do Bush, mas não sabe bem porquê e culpa tudo no sistema.


O Tony

Usa brilhantina e outros adornos obsoletos como fios de ouro, camisas abertas, meias brancas e pêlos no peito. Bebe whisky novo sem gelo porque é "fino" e não sabe soletrar hipocondríaco. Geralmente engata senhoras pequenas com batas gastas de flores azuis (e quando estas não lhe dão conversa, existem sempre as meninas da Rua do Tacão, com quem ele até não faz senão dançar naquelas tascas de cortina vermelha ao pé do Avião), chora agarrado à jukebox do Esteves enquanto ouve o "24 Rosas" pela enésima vez e sabe a letra de cor. Não sabe bem onde ficam os Estados Unidos, mas também tem mais o que fazer.


O Stalker

Tenta ter o cabelo igual ao do Pedro Miguel Ramos, as calças iguais aos tipos das novelas da TVI, os sapatos iguais aos Anjos e a mesma cara de mulher falhada durante a gestação. Passa a noite à porta do Majong (já que no lux não consegue entrar, o pobre diabo) de copo de mojito na mão, mesmo detestando menta, na esperança que a Fernanda Serrano passe por lá sem atrelado e repare nele. Comprou o último disco da Mariza e apoia incondicionalmente a Clara Pinto Correia, essa injustiçada da imprensa nacional. Gostava de ir à Casa Branca e voltar com uma polaroid assinada pelo Bush. Qualquer um dos dois serve.


O Incapaz-de-pensar-por-si

Veste o que os amigos lhe dizem para vestir, corta o cabelo onde os amigos lhe dizem para cortar o cabelo, bebe o que os amigos bebem e vai onde os amigos vão. Não se mete com nenhuma rapariga sem antes perguntar a opinião dos amigos. Ouve música quando está com os amigos, desde o Kenny G aos Pavement consoante os grupos com quem sai durante a semana. É rápido a concordar com tudo e só gosta do Bush às segundas, quartas e sextas, quando se encontra com os amigos da Jóta Ésse Dê. Nos restantes dias frequenta socialistas e não entende a Guerra do Iraque.


Para a semana há mais. Ou não.



Music: Franz Ferdinand (têm piada, de facto)
 
 


 
  2004.02.25  13.37
Oh si cariño, el número es...

Senhoras ( e senhores, com certeza), liguem o 12118, onde um funcionário da PT estará certamente do outro lado pronto a dar-vos todos os números que precisem num tom langoroso e arrastado, em jeito de filme porno traduzido para espanhol.

É qualquer coisa, a PT, de facto.

E melhor ainda, um dos funcionários despediu-se com um fabuloso adeus boa tarde, um beijinho. É o fim do mundo, eu li na Bíblia.



Music: Palace Brothers
 
 


 
  2004.02.12  16.51
A verdade das coisas e o sentido de humor.

Há quem o tenha, há quem não o tenha. Há quem aprecie o sentido de humor negro, há quem o aprecie mais alaranjado.
Há quem tenha paciência para quem não tem paciência e há quem a não tenha para quem a tem.

A propósito de alguns comentários que recebi, que, desconfio sem querer averiguar, já me tinham sido feitos em privado no e-mail, cumpre-me fazer uma ou outra observação e conto que este seja o único post relativamente sério que vou escrever aqui.

A pertinência do que eu digo só pode interessar a quem estiver disposto a não tentar aprofundar demasiado a raiz do pensamento que me leva a escrever aqui. Não me compete ser nem parcial, nem objectiva, nem coerente, nem engraçada, nem brilhante. Não está escrito em lado algum que não posso dar asas ao meu ego, tenha ele o tamanho que tiver, não assinei nenhum contrato que me vincule a ser humilde, a ser sapiente, a aceitar seja o que for que não me agrade, a não responder como bem entendo, a dizer a verdade ou a mentir. Não existe vaca que seja sagrada o suficiente para que eu não comente, goze, critique, idolatre ou ignore. Este espaço serve-me a mim, aos meus interesses únicos e exclusivos (e esses não são nem têm de ser alvo da curiosidade de ninguém) e quem se sente incomodado por isto precisa urgentemente de duas coisas essenciais:
1) Uma vida. Daquelas de verdade, lá fora, com sol e chuva e gente idiota e tudo, que o/a mantenha afastado/a deste blog.
2) Um vodka duplo, sem gelo, para não engolir a seco.

Já várias foram as ocasiões em que a minha identidade foi comentada aqui, e isso é que já é profundamente inútil - a necessidade que qualquer um de vocês tem de saber o que eu faço dos meus dias ou não, e se sou de facto quem digo ser ou uma fraude não existe mais que a necessidade de dar uma bicicleta a um peixe, para citar a canção.
Não tenho a obrigação de justificar nem o que sou nem o que faço, não tenho obrigação alguma nem para convosco, nem para com o livejournal. Se eu ando a tirar cafés (que por mero acaso não ando, mas já tive os meus dias), se escrevo para o boletim do LIDL, se ando a comer o Presidente da Assembleia da República ou o Jorge Gabriel é comigo e só comigo. Não diz respeito a ninguém. E sim, aborrecem-me solenemente as certezas dos outros em relação a mim porque as certezas, em geral, me aborrecem. Tal como me aborrecem pessoas incapazes de ler entre as linhas e perceber que eu não tenho de fazer sentido para opinar, desde que o faça num espaço que é meu e que não deve nada a ninguém. Doravante, e sendo que isto servirá de resposta no futuro, vou abster-me de responder a comentários do género, não só porque não tenho de o fazer e porque sou eu a única pessoa que tem o direito de decidir sobre o meu próprio grau de exposição aqui, mas também porque alimentar ilusões alheias é muito last tuesday.



Music: Songs:ohia - Magnolia Electric Co.
 
 


 
  2004.02.03  13.15
Não, não, isso é que não.

Não é meu hábito comentar este tipo de coisas, mas hoje é dia (e pensando bem, ó liberdade suprema do ser, eu não tenho hábitos) de falar do último filme do Woody Allen e de algumas reacções que observei à saída da sala.

"Anything Else", não sendo um filme brilhante, é um filme representativo de uma série de comportamentos típicos do casal urbano-neurótico-pós-moderno-e-nem-sempre-bem-vestido, o que torna a identificação com os personagens pela parte do público bastante mais fácil. Afinal de contas, são às dezenas de milhar, espalhados pelo mundo, compram discos dessa grande fraude que é Diana Krall porque julgam gostar de jazz (já ouviram falar em Carmen McRae?), oferecem-se brincos, gravatas e livros do Sartre nos dias de aniversário, dormem em hotéis duas vezes por ano para apimentar a relação e experimentar além da posição do missionário e frequentam festas de artistas amigos onde passam horas a discutir a metafísica intrínseca no “Memorial do Convento” e o esquerdismo obsessivo de García Marquez e o seu apoio ao tirano Fidel... (se acaso existe quem se reconheça nesta descrição, passe à frente, este blog não é para si)


Falk é um imbecil, bem ao jeito dos imbecis que já mencionei neste espaço, e como tal, nada surpreendente que a grande maioria se sinta inclinada a sentir uma tremenda e incompreensível empatia pela criatura. É um idiota no mais puro sentido da palavra, um tipo estupendamente influenciável, incapaz de tomar uma decisão por si, dependente de um terapeuta mudo, de uma tipa que dorme com tudo o que se mexe menos com ele e de um velho paranóico e obcecado por Auschwitz e a Gestapo em plena Nova Iorque no séc. XXI. E no entanto, é ele o herói da história e as meninas e os meninos insultam a maquiavélica e desequilibrada Amanda entre os risos das piadas que conseguiram entender.

Será possível? Eu tento entender que psicose leva as massas à identificação com a parte mais fraca, mas não me chega o intelecto para tamanho enigma. Amanda é deliciosa na sua desorganização, brilhante na forma como faz dos homens plasticina nas suas mãos, hilariante na sua falsa (e no entanto convincente ao sexo oposto) ingenuidade e espontaneidade, extraordinariamente hábil em fazer com que as suas inverosímeis desculpas e mentiras soem a verdades absolutas- ela sim, deveria ser a heroína do filme. E não duvido que todos ficaríamos mais inteligentes se em vez de termos como narrador o pobre Falk, víssemos todo o filme da perspectiva da delicadamente viperina Amanda.

As Amandas deste mundo (que se existir de facto um deus, não serão assim tão poucas) são mulheres práticas, conseguem o que querem e têm profunda consciência do poder que exercem sobre o sexo oposto e da importância de utilizar os seus recursos para atingir um determinado propósito (que não, não tem necessariamente de ser financeiro). Os Falks, a serem úteis, são-no apenas por um período de tempo limitado- é impossível que não se tornem cansativos ao fim de alguns meses (e corajosa a Amanda que suporte um Falk mais que uma semana) quando se pode inclusivé dormir com quem se quer, dentro de uma relação supostamente monogâmica, e conseguir não só convencê-los de que se trata de sexo terapêutico, mas também fazer com que se sintam culpados por isso. Deve ser uma experiência dolorosa partilhar-se a cama com alguém que sonha com equipas de baseball em formação no Toys r’ us, que tem como agente para vender piadas sobre baby sitters um anão de jardim, que medita sobre o vazio do Universo em busca de um sentido à sua existência e que, pior ainda, tem como objectivo de vida escrever um livro sobre isso.

Apesar de tudo isto, continua a ser Falk o herói simpático da coisa. Alguém me explica o que pode existir de simpático numa criatura tão desinteressante e tão facilmente moldável? Que qualidades pode esconder um tipo que tem uma necessidade tão grande de dormir acompanhado que tolera e aquiesce com todas as manipulações de que é, supostamente, alvo?
Útil? Certo. Certíssimo, mesmo. Simpático? Nem neste mundo nem no outro.

À guilhotina com ele, digo eu. Ou ao Cabaret da Coxa, a cantar acompanhado de duas loiras com tops de napa, vai dar ao mesmo.



Music: The Divine Comedy -Tonight we fly
 
 


 
  2004.01.23  17.19
Fim de semana devia ser quando uma mulher quisesse...

...e sobretudo, durar o tempo que cada uma quisesse.

E entretanto descobri o local onde vou passar os meus gloriosos anos de reforma.Vi isto algures na internet: "As mulheres Mangaias, da Polinésia, têm de ter pelo menos um orgasmo em cada relação sexual. Caso contrário, o parceiro perde o seu estatuto social, já que não conseguiu satizfazê-las."



Enfim, como dizia alguém por aí, o Paraíso aí tão perto e tanta gente à espera de morrer para tentar entrar lá dentro.



Music: Pavement - Teenage Piss Party
 
 


 
  2004.01.20  12.59
ora pois então

A partir de agora, sem frequência ou assunto rigorosamente definidos, podem encontrar-me algures pela revista 365.


E basicamente, é isto.

 
 


 
  2004.01.16  16.43
I owe you nothing

Talvez eu não seja, de todo, a pessoa mais indicada no mundo para pedir clemência, mas brado aos céus e ao que quiserem para não ter de passar por todo este revival dessa pavorosa década de oitenta.
Custa-me a crer que quem tenha atravessado heroicamente esses dez anos de tremendo mau gosto a sofrer agonias encare isto com o estômago ligeiro, não brinquemos com coisas sérias. É preciso ser-se de um masoquismo extremo e comer muito Compensan ao pequeno almoço, francamente.
Não passei a década em questão a dormir e tenho plena consciência de que foram feitas coisas muitíssimo boas, mas sendo que eram feitas na ordem de 1 coisa decente para 74 pindéricas, o que, a pesar bem na balança, não me chega de forma alguma para não querer encher o corpo de Xanax durante esta inverosímil repescagem da cutura 80’s.

Não me lixem. Como é que é possível um comeback dos Modern Talking? Como? Como é que é possível que voltem a estar na moda os penteados à Futre (oh, por favor, os penteados à Futre não...), os collants verdes com sapatos bicudos e cor de rosa, o lip gloss, as saias às bolas com folhados, os cintos por cima das camisolas, as botas enrugadas por cima das calças, o Fame, as festas em que se dança ao som de communards, da Sabrina ou da princesa Stéphanie do Mónaco (se alguém puser esse single em rotação outra vez, garanto-vos que me torno terrorista hertziana), enfim, o pavor total.
A saída dos anos setenta, com a quantidade de drogas descobertas e consumidas, não podia ter sido pacífica, mas desconfio que nunca ninguém suspeitou que a década seguinte pudesse ser tão má. O mau gosto imperava de tal forma que mesmo artistas conceituados, respeitados e criativos como o David Bowie viveram os seus mais negros anos quando quiseram acompanhar o que devia ter sido erradicado à partida. Os sintetizadores, as baterias electrónicas, as calças de napa do David Gahan, o Lemmy dos Motorhead a roubar a tipa em cuecas e soutien de cima do palco dos Frankie Goes to Hollywood, os BROS e todos esses pesadelos, poderiam e deveriam ficar enterrados nos confins da História da Humanidade, debaixo do tapete das mais negras eras que vivemos até hoje, mas não, alguém teve de se lembrar de ir buscar tudo isso à lama e de lhe dar uns retoques aqui e ali para dar um ar moderno à foleirice suprema dessa década.

Tenho cá para mim que a merda não se disfarça com perfume e que os anos oitenta, por mais que se lhes faça um facelift, vão ser sempre anos marcados por um profundo, tremendo e inacreditável mau gosto. Porque não deixá-los simplesmente desaparecer de vez? Teremos nós que suportar Best of’s do Lionel Ritchie e dos Wham! ? Será o valor nostálgico o suficiente para que tudo se perdoe a quem inventou as argolas de pirata?



Music: Nina Simone - Nobody knows you when you're down and out
 
 


 
  2003.12.29  12.25
hohoho

Mais interessante que trazer a Raquel* para a redacção comigo, garanto-vos, é trazer um vibrador. Sim, um vibrador. Nada de muito vistoso, um aparelhómetro com o formato de uma freira, azul, que encontrei numa loja sobejamente conhecida dos frequentadores do Bairro Alto e que decidi colocar em cima da mesa, mesmo ao lado do telefone.
À primeira vista e antes do primeiro café, todos os gatos são meio pardos e a tendência desta gente é tentar descobrir que prendas adornam as mesas de cada colega, e a minha freira parece um candeeiro. Ou melhor, esta gente vê um candeeiro à primeira e não existe nada que me tenha feito rir mais este ano que as reacções deles quando tentam acender a luz.
Elas só não largam aos gritos porque enfim, ninguém acorda às cinco da manhã para encher a cara de base e rímel para perder a compostura com um massajador facial (sim, sim, quem é que nunca viu um vibrador à venda naquelas revistas de invenções do século que aparecem nas caixas de correio com o singelo nome de massajador facial?) em forma de freira. Já vi de quase tudo.

Umas soltam um pequeno guincho, largam o objecto de imediato e olham para mim num misto de horror e indignação enquanto se dirigem à porta, sem uma palavra, ansiosas por bradar aos céus a infâmia da mal educada do 5º andar, é sempre assim, é intragável, primeiro o lagarto, depois aquela coisa, é inadmissível!, de lágrima no olho e bochecha que até se notaria vermelha se os quilos de fond de teint não escondessem tudo.

Outras reagem com o humor que lhes é possível, uma risadinha embaraçada, um ai, que horror, doutora, olhe se o senhor director vê isso, enquanto limpam a mão na saia, vá-se lá saber o que eu por ali faço quando fecho a porta, elas até nunca me acharam flor de cheiro, no fim de contas, e fogem, direitinhas à sala de café, também elas ansiosas por partilhar o escândalo. No fundo, no fundo, a estas noto-lhes uma certa vontade de perguntar onde é que se compra aquilo e se vem noutros padrões e formatos e no fundo, no fundo, eu até lhes fazia o favor de lhes recomendar a dita loja, resolveria com toda a certeza muitas maleitas a estes poços de falso pudor, mas enfim, continuo sem espírito natalício e não me sobra vontade de fazer favores a ninguém. À cadela da tesouraria, de boca cheia (o que neste contexto não soa muito bem) disse que lho emprestava quando ela quisesse, não há nada no mundo igual ao FRANCAMENTE! que a velha me lança sempre que lhe dirijo a palavra e este foi o mais sonoro e sentido de 2003. Impagável.

Depois os elementos masculinos da fauna e flora deste edifício. Nada de surpreendente. Gostam de encarar tudo o que venha da minha parte como um desafio à sua capacidade de engate e nem as rejeições consecutivas ao longo destes anos os convencem de que não existe, em nenhum dos meus argumentos (que en gros exprimem o que sinto em relação ao sexo oposto e ao seu intelecto dúbio, não preciso fazer um desenho) uma ponta de ironia ou humor. Não há grande coisa a fazer. A vida para estas criaturas resume-se a um teste constante à sua masculinidade e portanto, é de esperar que quando carregam no botãozinho (e não deixa de ser curioso que a grande maioria já saiba, à partida, que a minha freira não é um candeeiro, mas prefiro viver na ignorância da vida pessoal dos meus colegas de trabalho. É uma questão de bom senso, digo eu.) lancem uma tentativa de gracejo e um olhar em jeito de quem sugere fazer um melhor trabalho, mas também eles se dirigem apressados à sala do café quando eu afirmo, no meio de um longo e prazeroso suspiro que ao menos a freira, no fim, não quer saber se foi bom para mim e evita o embaraço de uma resposta negativa.

O director foi o mais discreto de todos, ao fim de tanto tempo acaba por ser quem melhor me conhece e quem menos se deixa escandalizar, gosta da Raquel e só achou que azul era pouco natural para o propósito que reservava ao boneco. Expliquei-lhe que para servir de espantalho, tanto servia o azul como o vermelho ou o amarelo e assim seguiu, depois de soltar uma gargalhada sonora e me dar uma palmadinha do ombro em sinal de aquiescência, também para a sala do café mas pelas razões certas, para tomar café.

Em tudo e por tudo, o vibrador serve a minha causa tão bem ou melhor que a Raquel, só não se diverte como ela, o que me tira também a mim metade do gozo. Excepção feita aos momentos em que fecho a porta e baixo os estores, deixando o departamento inteiro à mercê da sua imaginação.






*A Raquel anda doente, a mudança de pele não lhe correu muito bem e teve problemas num dos tímpanos e então, optei por deixá-la em casa, entregue aos cuidados de uma empresa que se encarrega de cuidar de animais. Levou-me quase uma semana conseguir alguém que não gritasse “credo, um lagarto não!” e tive de pagar uma pequena fortuna para não a deixar sózinha, entregue às suas velhas peles. Não entendo como é que existem pessoas que de bom grado lavam o rabo de um caniche, essa fétida amostra de cão que comunica através de guinchos estridentes, e se sentem completamente ultrajadas se acaso lhes é dado o privilégio de se ocuparem de um animal digno e silencioso como a Raquel. Mistérios da psique humana que nem Freud conseguiu explicar.



Music: Richard Thompson - Rumor and Sigh
 
 


 
  2003.12.12  15.31
Querido Pai Natal

Raptei o Rudolfo. Está trancado na varanda e não lhe vou sequer dar comida enquanto não assinares uma nota de compromisso. Ainda o deixava beber água se ocasionalmente chovesse, ele sempre podia meter a língua de fora e lá entrava uma ou outra gota, mas entretanto o sacana fazia tanto barulho que acabei por amordaçá-lo também. Não há boquinha, não há águinha, já sabes.
As minhas reinvindicações são simples na execução, num piscar de olhos resolvemos isto e devolvo-te o que restar da rena, a única coisa que tens de fazer é pedir à Coca Cola reforma antecipada e desaparecer para uma ilha qualquer no pacífico, rapar a barba e mudar de nome. Podes levar contigo quem quiseres, desde que te ponhas a milhas de qualquer marco de correio, posto de internet ou telefone.
Caso não estejas disposto a ajudar-me a matar o mito, para além de deixar o cavalo cornudo apodrecer na varanda, vou sacar-te o resto dos animais um a um e enviar-lhes os cadáveres para fábricas de salsichas como aquela ao lado da casa do Marco Paulo, pego-te fogo à mãe natal de borracha, ao trenó e distribuo os sacos de prendas pelas crianças betas de Cascais, Versailles e todos os covis de gentalha rica que me ocorrerem no momento. Farei reportagens para vender às televisões nacionais, à BBC, à CNN, à National Geographic, à Cartoon Network a mostrar ao planeta como és frio e calculista, com imagens de crianças desfavorecidas pelo mundo fora e como as ignoras, cimentando ainda mais o muro que separa as classes. Não subestimes o poder da propaganda.

Muitos beijinhos,
Ana Rita.













(que ninguém se dê ao trabalho, eu já sei que o velho não existe)



Music: silêncio total, por hoje
 
 


 
  2003.12.09  17.52
olaré palminhas olaré

A Beatriz decidiu fazer de mim confidente. Eu torço a cara, eu faço ar de desinteresse, eu suspiro, eu atendo chamadas de televendas como se o meu futuro dependesse de uma promoção de uma nova agência de viagens DURANTE os desgostos amorosos da semana e mesmo assim, mesmo assim, ela vem chorar para o meu gabinete. "Dra, ai doutora, o que é que eu faço?" e chora muito, não sabia que um estagiário chorava tanto, "Doutora, não entendo o Nuno, estou a ficar maluca doutora, e ele telefonou e depois não apareceu" e a conversa vai por ali fora, tem jeito para os monólogos dramáticos, a rapariga, eu é que não tenho jeito para os ouvir e menos ainda para aconselhar quem quer que seja sobre o que quer que seja.
As mulheres como a Beatriz são-me muito pouco simpáticas. O que dizendo as coisas como elas são, significa simplesmente que não as suporto. Dependem de tudo, dependem dos namorados, dependem do sol ou da chuva, dependem do final da novela, do shampoo anti-caspa e dos saldos do natal, têm flutuações de humor intermináveis e no fim, sentem a absoluta necessidade de partilhar com o mundo os seus infortúnios, em grande parte fictícios e em pequena parte, risíveis. Chego a pensar que destacaram a Beatriz para o meu departamento para gozar comigo. Aposto que em todos os departamentos desta redacção existem mulheres ansiosas por encontrar uma Beatriz com quem possam ser condescendentes e partilhar a sabedoria de uma vida frustrada mas, com toda a certeza, plena em conhecimento e a borbulhar de bons conselhos sobre o sexo oposto e as relações, por isso não entendo porque raio decidiu a criatura passar a ser a minha sombra.
Já tentei explicar-lhe que não sou a pessoa mais indicada e que tenho coisas mais importantes a fazer, que já saiu o novo número da Periférica ou da New Yorker e que assim atraso a leitura, até já lhe dei nomes de mulheres interessantíssimas (dependendo do ponto de vista, claro) com quem ela poderia partilhar as suas feridas de mulherzinha, mas vá saber, ela prefere ser ignorada no meu gabinete, até nisto é masoquista.
São às centenas de milhar, estas senhoras problemáticas, deviam unir-se e fundar um clube internacional de apoio às infelizes do coração, uma associação de mulheres que não sabem viver sem os homens e a quem nem os homens querem aturar, e se não fosse um personagem de ficção, nomear a Bridget Jones presidente. Acredito piamente que nem Freud seria capaz de explicar este fenónemo das mulheres que definham por amores não correspondidos mas que não são capazes de definhar na paz e no silêncio dos seus espaços. É exasperante. Para quê pedir conselhos? Qual o propósito?
Que ganhará a Beatriz se eu souber que o Nuno já não quer levá-la à cama?
Estas mulherzinhas só podem ser homens que nasceram com o orgão sexual errado. Por isso choram mais. Deve ser isso.
Ainda esta semana ofereci uma garrafa de Gin à desgraçada Beatriz-foi o que de mais parecido com um conselho encontrei pelas gavetas da minha mesa-mas ela não entendeu onde eu estava a querer chegar. Tentei explicar-lhe que não queria chegar a lado nenhum enquanto ela não bebesse a garrafa toda, mas ela não quis, devolveu-me a garrafa e recomeçou os seus desabafos doentes sobre o estudantezinho de Medecina Dentária que se deve estar totalmente nas tintas para tudo isto. Eu fui saíndo de fininho e pedi-lhe só que apagasse a luz e limpasse o ranho da poltrona quando acabasse. Mas claro, não tendo a Beatriz amor próprio que lhe chegue para entender que não vou, nem tenho interesse algum em fazê-lo, ajudá-la, esta manhã estava no meu gabinete outra vez.
Nem eu consigo argumentar tanto tempo, portanto, a Beatriz hoje ficou encarregue de fotocopiar todos os artigos sobre o Burkina-Faso que encontrar nos arquivos, desde 1950 até ao ano corrente. Quando ela acabar isso, acho que vou precisar com urgência que me recolha informação sobre a população mundial de lémures e sobre sua interacção com os ecossistemas em que estão inseridos, caso a caso.
Só lhe faltam oito meses de estágio, acho que consigo pensar em várias coisas interessantes para ela fazer quando estou na redacção. Destas assim, que lhe levam dias inteiros no arquivo. Ela nem imagina o favor que nos faço às duas.

Feliz Natal Beatriz.



Music: (smog)
 
 


 
  2003.12.02  12.33
O que é um pseudo intelectual? um sucedâneo de intelectual?

Não há paciência que chegue. Ou melhor, provavelmente há, eles lá se vão aturando uns aos outros, eu é que não fui buscar a minha quando passou a carrinha de distribuição e agora, não consigo, dão-me urticária aqueles óculos de massa e aquela atitude toda, e o torcer de narizes e os olhares revoltos quando alguém não gosta do último filme daquele realizador magnífico daquela ilha com um nome estranho no meio de Galápagos. Um filme bom para as tartarugas mas que este belo rebanho de iluminados louva acima de tudo, com certeza. A cultura não é para todos. Nalguns casos, até nem é para ninguém, mas eles, oh eles, elite suprema, nata do leite intelectual da sociedade, a roçar à manteiga se demasiado agitados, eles tudo entendem, tudo absorvem, tudo conhecem. E o que eu gosto deles, ninguém calcula. São tão infinitamente mais interessantes que o comum dos mortais que me é humanamente impossível recusar-lhes qualquer convite. E gosto especialmente de lhes dar a conhecer o quão extraordinariamente entediantes, aborrecidos, vazios de sentido estético e conteúdo são, regra geral, estes acontecimentos. E é muito mais prazeroso saber que, por mais que deite por terra toda a suposta arte conceptual de que se alimentam estes vampiros, não passam três dias sem que a Beatriz, a estagiária que me assiste, me venha pousar na secretária convites para a inauguração de uma parede branca com um ponto vermelho no meio na galeria do Stanislav Prokoviev Arkolhoff Djmilaï de Oliveira Bastos, ou para o concerto minimalista em ré maior na Centro Cultural de Aldroegas. E eu vou sempre. E eles sorriem-me sempre porque me julgam útil à causa, porque julgam que um dia não vou bocejar, porque julgam que um dia vou mesmo escrever sobre aquele desfilar de monstruosidades pretensiosas e dar-lhes assim alguma credibilidade. Por mais que eu insista em salientar que só lá estou porque me diverte a pretensão artística (e agora, lembra-me várias vezes o [info]nightlopes) e que os acho sinceramente patéticos, não consigo provocar neles mais que meia dúzia de risinhos (com a mão à frente da boca porque lhes fica mal mostrar os dentes) incrédulos, como quem diz, que espirituosa está hoje a querida, só pode mesmo estar a brincar, e muda-se de assunto, vai-se jantar a algum lado cheio de gente bonita (sendo aqui também que os critérios deixam a desejar, não entendo o que pode haver de bonito no penteado do Futre), ouvem-se os Raveonettes e bebem-se Margueritas aos litros. Sempre sem perder a postura.
Acontece-me acabar estas noites com algum imbecil como o Zé Pedro a tentar convencer-me da importância da Branca de Neve do João César Monteiro enquanto tenta enfiar-me a mão na perna, e é aí que mais me divirto. Acho-lhes um piadão, a estes rapazes que vivem na feliz ignorância da realidade e julgam mesmo que para me levarem à cama, não precisam ter nem bom hálito, nem uma cara completa, nem um corte de cabelo que não seja constrangedor até para a Raquel...

Talvez o mundo seja mesmo dos pseudo intelectuais e das suas manifestações artísticas, das suas latas de sopa e dos seus filmes para tartarugas. Talvez sejam eles, nas suas trocas de elogios mútuos, na sua incompreensão dos parâmetros do belo, do realmente relevante e belo, talvez, só talvez, sejam eles os sobreviventes do holocausto nuclear. Eles e as baratas.



Music: Bright Eyes - Fevers and Mirrors
 
 


 
  2003.11.20  14.44
Não morri, não, estou só com sono

E lá vêm eles com o seu raio de espirito natalício fora de data. Dá-lhes esta febre uma vez por ano, enfeitam a redacção com bolas de cores que deviam ser proibidas por lei, enchem tudo com decorações idiotas e homens de borracha vestidos de vermelho (realmente concede-se o mérito à companhia de refrigerantes que impingiu o velho gordo ao mundo), e incomodam-me com e-mails de pedidos de ajuda para as freirinhas da Baixa da Banheira, para os orfãos de Canastrim, para os ministros depostos com a doença de Alzheimer, listas de postais de natal, trocas de prendas e o raio que os parta a todos e ao calendário que me contraria sempre e não apaga esta data.
Estas bestas são o que são o ano inteiro, nesta altura do ano vestem a pele de cordeiro e insistem em fazer as pazes com o mundo e brincar às pessoas de bem. E esperam que EU altere o meu comportamento habitual e faça de conta que sou simpática. Eu sou simpática, não é culpa minha se não reconhecem simpatia na minha forma de estar, não sou obrigada a dizer bom dia se o dia não é bom, nem tenho de agradecer se as pessoas são pagas para arquivar o meu correio. E nem pensar em alterar isso só porque se aproxima um feriado qualquer. Antes desse ainda tenho dois para gozar e ninguém vai oferecer prendas a ninguém porque o Jim Morrison fazia anos dia 8 de Dezembro (é por isso, o feriado, não é?).
Já era bastante desagradável ter de suportar os jantares de Natal em casa, o paizinho gostava muito de enfeitar a casa de porcarias de anjinhos e estrelinhas e a mãezinha gostava muito de aborrecer o paizinho. O resultado era uma tragédia Shakespeariana, que a termos espadas em casa seria certamente o Titus Andronicus, fora a cena da violação porque por ali ninguém queria dormir com ninguém. Quando penso nisso, vejo que a aversão às festas religiosas é certamente o único traço que partilho de bom grado com a personalidade da senhora minha mãe. Tem razão, a velha cadela, era adormecer em Novembro e acordar dia 31 de Dezembro, mesmo a tempo para a primeira bebedeira do ano, isso é que era.
Pior que tudo serão as manifestações forçadas de carinho que me fazem e que aliadas aos convites em tom de choro inundados de empatia para que não passe o Natal sózinha, aos postais dos Aníbais, às tentativas de aproximação da D. Amélia que me sabe de bem com o Banco e me descobriu a trabalhar no jornal, às reportagens idiotas que sou por vezes obrigada a fazer (julgam ser fácil falar sobre o natal do Ricky Martin sem beber uma garrafa de gin de penalty?) tornam esta altura do ano especialmente desgastante.
E nunca vou entender como é que existe gente à minha volta que acredita sinceramente que me comovo com os saldos nas grandes superfícies e que ando a dar brinquedos às crianças desfavorecidas às escondidas. Não ando. Não ando mesmo. Começo a já não saber responder aos comentários de psicólogos de bolso que, invariavelmente, no Natal se dão ao trabalho de me analisar e chegar à conclusão que no fundo, no fundo sou uma pessoa sensível e emocional que só não mostra que gosta do mundo por ser modesta. Apre. Não imaginam sequer o arsénico que os faria beber com o espumante se me fosse concedido o perdão em tribunal. Não há nada que ver aqui e não me condoo mais com os males do mundo agora que em Agosto.

E com isto, recordo, agora sim a transbordar empatia, a “Caranguejola” do Mário de Sá Carneiro:
Não, não estou para mais; não quero mesmo brinquedos.
P'ra quê? Até se mos dessem não saberia brincar...
Que querem fazer de mim com estes enleios e medos?
Não fui feito p'ra festas. Larguem-me! Deixem-me sossegar!...


Também eu não estou para mais. Acordem-me lá para dia 31 do mês que vem.



Music: Sebadoh - Bubble and Scrape
 
 


 
  2003.11.10  16.53
Ora bem

Vou disponibilizar o meu e-mail. Aos iluminados que julgam adivinhar até mesmo a posição em que durmo pelo que aqui leram, fica o endereço para o qual devem dirigir os vossos patéticos insultos. E aos outros também.

anaritacc@aeiou.pt



Mood: blah
Music: ani di franco
 
 


 
  2003.11.04  11.42
E quando penso ter visto de tudo...

Encontrei um curioso personagem algures por este espaço (aliás, aparentemente, foi ele quem me encontrou). O ser intitula-se de (é hilariante, até nisto é hilariante) [info]nightlopes, o Lopes da noite, bastava o nome para eu ganhar o dia em gargalhadas, mas não, o rapaz tinha de fazer pior, tinha de ser artista. Pior ou melhor, depende do ponto de vista, porque apesar de haver quem me julgue desprovida de humor, isso não é, de todo, a verdade, e eu gosto de dar as minhas risadas. O nocturno Lopes terá pelo menos o mérito de me ter provocado minutos de prazer intenso e de ter mexido na profunda e enraízada velhaca que há em mim (passo das opiniões de quem julga que em mim, não há mais nada para além da velhaca, as redundâncias nunca fizeram avançar o mundo).

Caro Lopes, o amigo vive num casulo peganhento de auto-comiseração. Inventaram o suícidio, mas o amigo estaria certamente ocupado a esfregar uvas na genitália quando isso aconteceu e desperdiçou uma boa oportunidade de cortar os pulsos (existirão outros métodos, mas este parece-me, de longe, o que mais se lhe adequa pelo dramatismo e sofrimento prolongado que lhe são característicos). É inacreditável que a sofrer do modo como sofre, ainda não lhe tenha ocorrido que uma simples lâmina possa pôr fim à sua dor. E à dos que o rodeiam porque calculo não ser fácil manter uma conversa consigo sem sentir todo o peso da descoberta moderníssima da depressão.
No entanto repare o amigo Lopes, no fundo, talvez seja o senhor a profunda expressão do que é ser português hoje em dia. Diz-se que somos tristes por natureza e que temos a dor e a saudade em nós como os americanos têm, por exemplo, o Cartoon Network, e o amigo eleva isso a uma esfera que não conhecia, de todo. É certo, não é fácil ser português, é até compreensível que se esteja deprimido cá, temos todas as razões do mundo para nos sentirmos mal, estamos em crise, as estradas têm buracos, o nosso Primeiro Ministro sofre de disfunções gravíssimas de personalidade e tem guelras e, pior ainda, temos a família da Câmara Pereira que insiste em procriar, mas nem toda a gente consegue sofrer o ser português com a glória que o amigo Lopes consegue. É que o seu sofrimento não tem par. Não existe adolescente incompreendida nem neste mundo, nem no outro, capaz de sofrer tanto e isto não é dizer pouco. Não é preciso ler muito o Livejournal para compreender que com a internet, os adolescentes (elas sobretudo, porque nos homens a crise vem bastante mais tarde quando felizmente, já não temos tempo para os aturar) sofrem muito mais. Muito, muito mais. São triplamente incompreendidos, sofrem triplamente de injustiça da parte dos pais e restantes familiares, sofrem triplamente porque ainda não têm adsl ou porque apanharam um virus que lhes deu cabo do disco rígido e apagou os logs dos engates do MSN todos, apaixonam-se e levam com os pés três vezes mais depressa e no fundo de mim suspeito que têm mesmo três vezes mais borbulhas na cara que nos meus tempos púberes(no entanto, noto que se vestem nítidamente melhor. Para alguma coisa havia de servir o site do Corte Inglês ou onde raio é que os adolescentes compram roupa na internet. Já em relação à música que ouvem, continua a ser dolorosamente má, o que é de estranhar com o soulseek no seu apogeu, mas enfim, um adolescente não seria um adolescente senão delirasse com Evanescence). Garanto-lhe, nem juntando todas estas princesas de cor de rosa com todos os seus príncipes azuis dentro de um saco de lona a chorar as desgraças do acne e do mundo depois da Avril Lavigne, se poderia alcançar o seu sofrimento, a sua dor, a sua tristeza e abandono. Não sendo único, o amigo Lopes é pelo menos muito bom dentro do género do sofredor intenso e crónico.
Estou deveras impressionada, garanto-lhe. E aproveito a oportunidade para lhe agradecer não ter revelado ao mundo o que esconde atrás do cacho de uvas. Ainda não almocei e o meu estomâgo não é assim tão forte.

Aos que desconhecem o Lopes nocturno, aconselho vivamente uma visita urgente ao seu Livejournal. É que isto também é muito português da minha parte, mas é bem verdade. Existe SEMPRE alguém pior que nós.



Mood: Estupefacta
Music: ...and you will know us by the trail of the dead - homage
 
 


 
  2003.10.30  16.06
Que é que eles querem afinal?

Q: O que é que é cor de rosa e vermelho e está no canto?

A: Um bébé a comer lâminas.


Q: O que é que é verde e está no canto?

A: O mesmo bébé seis semanas depois.



Q: O que é que se oferece a um bébé morto?

A: Um cachorrinho morto. (elementar, meu caro Watson)


Q: Porque é que o bébé atravessou a estrada?

A: Porque estava agrafado à galinha.


Q: Como é que fazes um bébé morto flutuar?

A: Tiras-lhe o pé de cima da cabeça.


Q: O que é que é vermelho e trepa pelas pernas?

A: Um aborto com saudades de casa.


Q: O que é que um bébé surdo, mudo e quadraplégico pode ganhar no Natal?

A: Cancro.


Q: Porque é que não cruxificaram Cristo bébé?

A: Também não sei.




Fui acusada de não ter sentido de humor pelo Director do Jornal. Não compreendo, sinceramente.



Mood: bitchy
Music: I fell in love with a dead boy + Anthony and the Johnsons
 
 


 
  2003.10.28  13.59


Sem a minha música, nunca conseguiria chegar onde estou hoje. Deixem-me apresentar-vos às jóias da minha colecção.


Este é lindo. Um grupo de ex-agarrados a viajar pelos Estados Unidos fora no seu Addict-ó-móvel. Por zeus, a sério, que pena ainda ninguém ter inventado as doenças infecto-contagiosas na altura.


Este é o disco mais enternecedor da minha colecção. Se eu fosse mentecapta ao ponto de desejar ter filhos, seria com certeza com este disco que os adormecia. É a história do pintaínho Pipi, coisa mais fofinha, que não era obediente. No final arde no Inferno até à eternidade nas chamas de Satanás. Adorável. Simplesmente adorável.


Este também é interessante. É de um sobrevivente de um acidente de avião. Acho que a capa fala por si. Ideal para ouvir de manhã. A Raquel também gosta muito.


Este faz-me pensar na Redacção. Não sei bem porquê, mas faz. Outro que a Raquel gosta imenso.




Este é o meu favorito. Aqui o amigo também era agarrado e sei lá, não vale a pena entrar em detalhes. É o título mais bonito que alguém podia dar a um disco. Freddie, i love you.




Oh sim. Que seria de nós sem música?

 
 


 
  2003.10.17  00.18


O Miguel ofereceu-me a iguana dele dois dias antes de partir para a Islândia (onde está até agora a pesquisar para um livro que nem ele sabe bem do que vai falar, mas que vai envolver Vikings, na certa) . Ou melhor, impôs-me a iguana sob forte chantagem emocional e eu acabei por ceder. Sendo que o Miguel é das únicas pessoas no mundo por quem nutro carinho, assim mesmo, com todos os significados da palavra carinho, suponho que a iguana acabou por se tornar uma espécie de substituta para a companhia dele e agora, confesso, gosto dela.

Somos parecidas em muita coisa. Nenhuma de nós é especialmente paciente nem tolerante, ambas mostramos e usamos os caninos sempre que necessário, não temos idade definida e gostamos de chá de camomila. Para além disto, a Raquel também é bastante útil quando estou em dia de não falar com ninguém na Redacção, que são quase todos. Levo-a comigo e as minhas irritantes e histéricas companheiras de trabalho tornam-se estranhamente silenciosas o dia inteiro. Não sei se isto estará relacionado com o dia em que a Raquel mutilou o indicador da ruiva idiota que trabalha com o Director da edição on-line, talvez as mulherzinhas e os homenzinhos tenham ficado com algum receio, mas não entendo. A Raquel é uma iguana educada que não gosta que lhe enfiem nada dentro da boca que ela não enfiasse por gosto, não vejo qual é o mal nisso, não somos quase todos assim? Se aquela podenga encaracolada tentasse fazer-me o mesmo a mim, eu provavelmente também lhe arrancava a cabeça do dedo. As iguanas são, no fundo, similares aos humanos numa série de atitudes, é de uma bestialidade suprema considerá-las apáticas só porque têm o sangue frio e passam imenso tempo paradas. São introspectivas, pensam em coisas bastante mais sérias e importantes que a grande maioria dos animais supostamente racionais com que partilho os meus dias e ao menos não ficam deprimidas só porque têm uma malha nas collants de vidro. Até porque, pasme-se, as iguanas não usam collants de vidro.

De entre as coisas que temos em comum, existem algumas que admiro em particular. Nem eu nem ela gostamos de nenhum dos meus ex-namorados, não suportamos gatos (ainda que ela possa manifestar o seu desagrado de forma mais impune), nem cães, nem velhas, nem criancinhas, nem pessoas em geral. Gosto de a levar comigo ao supermercado porque enquanto discuto com os seguranças que não a querem deixar entrar, ela aterroriza os restantes clientes, salta do meu ombro para o chão várias vezes e volta a subir quando a chamo porque já não sou capaz de conter o riso. Faço as minhas compras e voltamos as duas para casa, ela para as suas lâmpadas para aquecer, eu para o meu sofá azul, ambas satisfeitas com a nossa vida partilhada em perfeita sintonia.
É uma pena que as mulherzinhas e os homenzinhos com quem lido diáriamente não se sentem no meu gabinete a olhar para a Raquel. A postura sempre digna dela dentro do seu espaço é uma lição de vida, ficassem eles sempre tão calados e talvez, só talvez, eu até lhes dissesse bom dia de vez em quando.

 
 


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